Mandante de homicídio de jovens é condenado a mais de 36 anos de prisão

Dia 4 de fevereiro de 2008 ocorria um duplo homicídio na cidade de Araras. Dois jovens de classe média foram executados a tiros quase que simultaneamente em pontos diferentes da cidade. Oito anos após os crimes, veio a condenação, após júri popular, de três homens envolvidos nos assassinatos, inclusive o mandante do crime, que foi condenado a 36 anos, 6 meses e 20 dias em regime fechado pelas mortes de Carlos Eduardo Martins e Lucas Narcizo Zanobi dos Santos, ambos 27 anos de idade.

 

O Júri Popular

foto_carlos-cor-so-a-foto

Lucas e Carlos, ambos 27 anos de idade, eram colegas

Um dos julgamentos mais demorados, senão o mais longo, da história ararense, aconteceu durante essa semana. Com início às 9h30 do último dia 24 e término apenas às 18 horas do dia 25, três réus foram julgados durante 32 horas e 30 minutos no Fórum de Araras.lucas-030508

Além do mandante do crime, o executor dos homicídios foi condenado a 31 anos e 4 meses de prisão e também outro homem que teria participado apenas de um dos assassinatos foi condenado a 16 anos e 4 meses.

O processo com mais de 2 mil folhas ficou extenso, segundo a promotoria, por conta das muitas horas de interceptações telefônicas. Os jurados tiveram que dormir em hotel e ficarem isolados em todo o período em que tiveram acesso as teses de defesa e também de acusação.

 

Os crimes

Noticiado na edição do dia 5 de fevereiro de 2008 nas páginas do Opinião, com grande notoriedade, inclusive como destaque de manchete na capa, a imprensa ainda não havia noticiado oficialmente o envolvimento entre os dois homicídios ou toda a história que havia por trás desses assassinatos dos jovens ararenses.

Com datas não confirmadas, a história dos homicídios começaria bem antes de 2008, quando as vítimas, após efetuarem um assalto, acabaram sendo presas pela polícia e levadas para a Penitenciária Estadual de Itirapina/SP.

De acordo com informações passadas ao Opinião pelo atual delegado titular de Conchal, que também responde em Araras, Tabajara Zuliani dos Santos, e na época responsável pela investigação do caso, os dois jovens eram amigos de classe média e por conta do uso de drogas acabaram migrando para a criminalidade. “Após um assalto, os dois foram parar em Itirapina/SP, e, segundo o Lucas, eles após caírem no presídio, sem opção, precisaram se envolver com uma facção criminosa na época conhecida como CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro do Crime), senão morreriam”, conta Tabajara.

O júri popular dos acusados demorou mais de 30 horas

O júri popular dos acusados demorou mais de 30 horas

 

A morte de Carlos

O primeiro assassinato aconteceu às 23h15. Carlos Eduardo Martins Pereira, morador no centro, estava sentado com mais uma pessoa em uma mureta na frente à sua casa, na rua Alfredo Dalge, quando apareceram duas motos. Um dos veículos ficou na esquina, enquanto a outra moto chegou perto da vítima e a pessoa que estava na garupa desceu e começou a efetuar disparos de arma de fogo contra Carlos. O acompanhante da vítima conseguiu fugir assim que os tiros começaram, pulou para outro lote vizinho e não ficou ferido.

Segundo essa testemunha, que presenciou o assassinato, a motocicleta seria uma Honda CG de cor prata, ocupada por duas pessoas, mas não conseguiu anotar outros detalhes dos condutores. Já a outra moto, a testemunha não conseguiu averiguar quantos ocupantes existiam. Uma ambulância do Samu foi acionada até o local e levou a vítima até o pronto socorro do Hospital São Luiz, mas Carlos não resistiu às perfurações e faleceu antes mesmo de dar entrada no hospital.

 

A morte de Lucas

Já a outra ocorrência aconteceu por volta das 0h, na avenida João Alfredo Graf, no Parque Tiradentes. Uma pessoa que mora na mesma rua disse que ouviu disparos de arma de fogo e barulho de um carro em alta velocidade. Logo em seguida, quando foi verificar o que havia acontecido, ouviu uma pessoa gemendo e caída no chão. Era Lucas Narcizo Zanobi dos Santos, morador no centro, que havia recebido os disparos. Uma viatura de resgate do Corpo de Bombeiros foi acionada pela testemunha, mas Lucas já estava sem vida.

No local, policiais militares e o investigador da Polícia Civil encontraram uma jaqueta, um maço de cigarro, um colar artesanal, três cápsulas deflagradas calibre 32 e dois projéteis. Após diligências e investigações pelo local, a polícia conseguiu identificar a vítima. Um familiar de Lucas compareceu até a delegacia e confirmou sua identidade. Viaturas da PM iniciaram patrulhamento pelas imediações, mas não foi possível apurar o autor do crime.

 

Motivação do Crime

A grande motivação do crime teria sido uma rivalidade entre facções, de acordo com o próprio promotor responsável pela acusação dos réus, Rodrigo Aparecido Tiago. Como os jovens teoricamente eram integrantes do CRBC, facção criminosa rival do famoso PCC (Primeiro Comando da Capital).

Para entender a principal motivação do crime, é necessário ilustrar a origem dessa guerra entre facções, que em 2002 foi publicada em uma reportagem na Folha de S.Paulo.

 

O motim

Surgido em 1999, o CRBC se autonomeia “oposição” ao PCC e já protagonizou rebeliões sangrentas, como a ocorrida em maio de 2002, no CDP 1 de Guarulhos. O motim teve sete mortos, todos membros do CDL (Comando Democrático da Liberdade), facção da qual também é inimiga.

“Onde quer que o CRBC esteja não poderão existir integrante do PCC (sic).” Assim é o 7º artigo do estatuto da facção Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade. O documento foi encontrado durante uma blitz de rotina realizada em 2002 por agentes penitenciários no Centro de Detenção Provisória 1 do Belém (zona leste da capital).

O CDP 1 do Belém, onde foi encontrado o documento, seria uma prisão dominada pelo PCC, onde, portanto, os presos do CRBC são obrigados a ficar no “seguro”. Além do estatuto, ainda foram encontrados na blitz celulares e facas.
O “documento” tem 18 artigos. No 13º fica clara a punição aos “traidores”: “O CRBC não dará oportunidade para casos de traição ou falha para com membros do CRBC tendo a pena prevista para este caso a execução sumária (sic)”.

 

Motivação do crime 2

Segundo relatos da Polícia Civil de Araras, os jovens ararenses já eram “caçados” dentro da cidade, por conta de informações que chegaram até os líderes do PCC na região de que eles teriam sido integrantes da CRBC.

Informações passadas pelo promotor do caso dão conta de que os acusados tiveram conhecimento de que supostamente as vítimas estariam tentando ocupar alguns pontos de tráfico de drogas no Jardim São João, que seriam dos membros do PCC. “Essa informação não ficou confirmada nos autos do processo, de que as vítimas teriam esse envolvimento com o tráfico no São João. Os jovens até tiveram envolvimento anteriormente no tráfico, mas nessa época elas mesmo sabiam do risco de vida que corriam, e por razão disso teriam se afastado, o que não resolveu”, explica o promotor Rodrigo.

Ainda segundo informações do promotor, sabendo disso o mandante do crime, que na ocasião era um dos líderes do PCC na região e estava preso na Penitenciária Estadual de Valparaíso/SP, deu uma ordem de que as vítimas fossem executadas. “Tivemos acesso a essas informações graças a interceptações telefônicas feita em Limeira feitas na época em que investigavam o próprio mandante em crimes de tráfico de drogas”, conta o promotor, que ressaltou o empenho das investigações na época feitas pelo chefe de investigação da Polícia Civil de Araras, Fernando Simoneto e lideradas pelo delegado Tabajara Zuliani.

(Lucas Neri)

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *


Copyrıght Grupo Opinião. Todos os direitos reservados.